SIMULADO DE SOCIOLOGIA PARA A UNESP

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1. (Unesp) Todas as vezes que mantenho minha vontade dentro dos limites do meu conhecimento, de tal maneira que ela não formule juízo algum a não ser a respeito das coisas que lhe são claras e distintamente representadas pelo entendimento, não pode acontecer que eu me equivoque; pois toda concepção clara e distinta é, com certeza, alguma coisa de real e de positivo, e, assim, não pode se originar do nada, mas deve ter obrigatoriamente Deus como seu autor; Deus que, sendo perfeito, não pode ser causa de equívoco algum; e, por conseguinte, é necessário concluir que uma tal concepção ou um tal juízo é verdadeiro.

René Descartes. Vida e Obra. Os pensadores, 2000.

Sobre o racionalismo cartesiano, é correto afirmar que;

a) sua concepção sobre a existência de Deus exerceu grande influência na renovação religiosa da época.
b) sua valorização da clareza e distinção do conhecimento científico baseou-se no irracionalismo.
c) desenvolveu as bases racionais para a crítica do mecanicismo como método de conhecimento.
d) formulou conceitos filosóficos fortemente contrários ao heliocentrismo defendido por Galileu.
e) se tratou de um pensamento responsável pela fundamentação do método científico moderno.

2. (Unesp) Nossa felicidade depende daquilo que somos, de nossa individualidade; enquanto, na maior parte das vezes, levamos em conta apenas a nossa sorte, apenas aquilo que temos ou representamos. Pois, o que alguém é para si mesmo, o que o acompanha na solidão e ninguém lhe pode dar ou retirar, é manifestamente mais essencial para ele do que tudo quanto puder possuir ou ser aos olhos dos outros. Um homem espiritualmente rico, na mais absoluta solidão, consegue se divertir primorosamente com seus próprios pensamentos e fantasias, enquanto um obtuso, por mais que mude continuamente de sociedades, espetáculos, passeios e festas, não consegue afugentar o tédio que o martiriza.

(Schopenhauer. Aforismos sobre a sabedoria de vida, 2015. Adaptado.)

Com base no texto, é correto afirmar que a ética de Schopenhauer;

a) corrobora os padrões hegemônicos de comportamento da sociedade de consumo atual.
b) valoriza o aprimoramento formativo do espírito como campo mais relevante da vida humana.
c) valoriza preferencialmente a simplicidade e a humildade, em vez do cultivo de qualidades intelectuais.
d) prioriza a condição social e a riqueza material como as determinações mais relevantes da vida humana.
e) realiza um elogio à fé religiosa e à espiritualidade em detrimento da atração pelos bens materiais.

3. (Unesp) Concentração e controle, em nossa cultura, escondem-se em sua própria manifestação. Se não fossem camuflados, provocariam resistências. Por isso, precisa ser mantida a ilusão e, em certa medida, até a realidade de uma realização individual. Por pseudoindividuação entendemos o envolvimento da cultura de massas com uma aparência de livre-escolha. A padronização musical mantém os indivíduos enquadrados, por assim dizer, escutando por eles. A pseudoindividuação, por sua vez, os mantém enquadrados, fazendo-os esquecer que o que eles escutam já é sempre escutado por eles, “pré-digerido”.

Theodor Adorno. “Sobre música popular”. In: Gabriel Cohn (org.). Theodor Adorno, 1986. Adaptado.

Em termos filosóficos, a pseudoindividuação é um conceito;

a) identificado com a autonomia do sujeito na relação com a indústria cultural.
b) que identifica o caráter aristocrático da cultura musical na sociedade de massas.
c) que expressa o controle disfarçado dos consumidores no campo da cultura.
d) aplicável somente a indivíduos governados por regimes políticos totalitários.
e) relacionado à autonomia estética dos produtores musicais na relação com o mercado.

4. (Unesp) Quando estou dentro do cinema, tudo me parece perfeito, como se eu estivesse dentro de uma máquina de sensações programadas. Mergulho em suspense, em medo, em vinganças sem-fim, tudo narrado como uma ventania, como uma tempestade de planos curtos, tudo tocado por orquestras sinfônicas plagiando Beethoven ou Ravel para cenas românticas, Stravinski para violências e guerras. Não há um só minuto sem música, tudo feito para não desgrudarmos os olhos da tela. A eficiência técnica me faz percorrer milhares de anos-luz de emoções e aventuras aterrorizantes, que nos exaurem como se fôssemos personagens, que nos fazem em pedaços espalhados pela sala, junto com os copos de Coca-Cola e sacos de pipocas. Somos pipocas nesses filmes.

(Arnaldo Jabor. “A guerra das estrelas”.O Estado de S.Paulo, 18.11.2014. Adaptado.)

Esse texto pode ser corretamente considerado;

a) uma crítica de natureza estética aos apelos técnicos e sensacionalistas no cinema.
b) uma análise elogiosa do alto grau de perfeição técnica das imagens do cinema.
c) um ponto de vista valorizador da presença da música erudita no cinema atual.
d) um elogio ao cinema como mercadoria de entretenimento da indústria cultural.
e) uma crítica ao caráter culturalmente elitista das obras cinematográficas atuais.

PLATAFORMA DE HUMANAS 

GABARITAGEO

5. (Unesp) A genuína e própria filosofia começa no Ocidente. Só no Ocidente se ergue a liberdade da autoconsciência. No esplendor do Oriente desaparece o indivíduo; só no Ocidente a luz se torna a lâmpada do pensamento que se ilumina a si própria, criando por si o seu mundo. Que um povo se reconheça livre, eis o que constitui o seu ser, o princípio de toda a sua vida moral e civil. Temos a noção do nosso ser essencial no sentido de que a liberdade pessoal é a sua condição fundamental, e de que nós, por conseguinte, não podemos ser escravos. O estar às ordens de outro não constitui o nosso ser essencial, mas sim o não ser escravo. Assim, no Ocidente, estamos no terreno da verdadeira e própria filosofia.

(Hegel. Estética, 2000. Adaptado.)

De acordo com o texto de Hegel, a filosofia;

a) visa ao estabelecimento de consciências servis e representações homogêneas.
b) é compatível com regimes políticos baseados na censura e na opressão.
c) valoriza as paixões e os sentimentos em detrimento da racionalidade.
d) é inseparável da realização e expansão de potenciais de razão e de liberdade.
e) fundamenta-se na inexistência de padrões universais de julgamento.

6. (Unesp) Texto 1

Estamos em uma situação aterradora: dos lados da Direita e da esquerda há ausência de pensamento. Você conversa com alguém da direita e vê que ele é capaz de dizer quatro frases contraditórias sem perceber as contradições. Você conversa com alguém da extrema esquerda e vê o totalitarismo que também opera com a ausência do pensamento. Então nós estamos ensanduichados entre duas maneiras de recusar o pensamento.

(Marilena Chaui. “Sociedade brasileira: violência e autoritarismo por todos os lados”. Cult, Fevereiro de 2016. Adaptado.)

Texto 2
O fenômeno dos coletivos é um traço regressivo no embate com a solidão do homem moderno. É uma tentativa, canhestra e primitiva, de “voltar ao útero materno” para ver se o ruído insuportável da realidade disforme do mundo se dissolve porque grito palavras de ordem ou faço coisas pelas quais eu mesmo não sou responsabilizado, mas sim o “coletivo”, essa “pessoa” indiferenciada que não existe.

(Luiz Felipe Pondé. “Sapiens abelhas”. Folha de S.Paulo, 23.05.2016. Adaptado.)

Sobre os textos, é correto afirmar que;

a) os textos 1 e 2 criticam o individualismo moderno, enfatizando a importância da valorização das tradições populares e comunitárias.
b) os textos 1 e 2 criticam as tendências totalitárias no campo da consciência política, em seus aspectos irracionalistas e psicológicos.
c) os textos 1 e 2 analisam um fenômeno que espelha a realização dos ideais iluministas de autonomia do indivíduo e de emancipação da humanidade.
d) os textos 1 e 2 valorizam a importância do sentimento e das emoções como meios de agregação dos indivíduos no interior de coletividades políticas.
e) o texto 1 critica a alienação da consciência política, enquanto o texto 2 valoriza a inserção dos indivíduos em coletivos.

7. (Unesp) O alvo dos ataques extremistas é o Iluminismo. E a melhor defesa é o próprio Iluminismo. “Por mais que seus valores estejam sendo atacados por elementos como os fundamentalistas americanos e o islamismo radical, isto é, pela religião organizada, o Iluminismo continua sendo a força intelectual e cultural dominante no Ocidente. O Iluminismo continua oferecendo uma arma contra o fanatismo”. Estas palavras do historiador britânico Anthony Pagden chegam em um momento em que algumas forças insistem em dinamitar a herança do Século das Luzes. “O Iluminismo é um projeto importante e em incessante evolução. Proporciona uma imagem de um mundo capaz tanto de alcançar certo grau de universalidade quanto de libertar-se das restrições do tipo de normas morais oferecidas pelas comunidades religiosas e suas análogas ideologias laicas: o comunismo, o fascismo e, agora, inclusive, o comunitarismo”, afirma Pagden.

(Winston Manrique Sabogal. “‘O Iluminismo continua oferecendo uma arma contra o fanatismo’”. www.unisinos.br. Adaptado.)

No texto, o Iluminismo é entendido como;

a) um impulso intelectual propagador de ideologias políticas e religiosas contrárias à hegemonia do Ocidente.
b) um movimento filosófico e intelectual de valorização da razão, da liberdade e da autonomia, restrito ao século XVIII.
c) uma tendência de pensamento legitimadora do domínio colonialista e imperialista exercido pelas nações europeias.
d) um projeto intelectual eurocêntrico baseado em imagens de mundo dotadas de universalidade teológica.
e) uma experiência intelectual racional e emancipadora, de origem europeia, porém passível de universalização.

8. (Unesp) Não posso dizer o que a alma é com expressões materiais, e posso afirmar que não tem qualquer tipo de dimensão, não é longa ou larga, ou dotada de força física, e não tem coisa alguma que entre na composição dos corpos, como medida e tamanho. Se lhe parece que a alma poderia ser um nada, porque não apresenta dimensões do corpo, entenderá que justamente por isso ela deve ser tida em maior consideração, pois é superior às coisas materiais exatamente por isso, porque não é matéria. É certo que uma árvore é menos significativa que a noção de justiça. Diria que a justiça não é coisa real, mas um nada? Por conseguinte, se a justiça não tem dimensões materiais, nem por isso dizemos que é nada. E a alma ainda parece ser nada por não ter extensão material?

(Santo Agostinho. Sobre a potencialidade da alma, 2015. Adaptado.)

No texto de Santo Agostinho, a prova da existência da alma;

a) desempenha um papel primordialmente retórico, desprovido de pretensões objetivas.
b) antecipa o empirismo moderno ao valorizar a experiência como origem das ideias.
c) serviu como argumento antiteológico mobilizado contra o pensamento escolástico.
d) é fundamentada no argumento metafísico da primazia da substância imaterial.
e) é acompanhada de pressupostos relativistas no campo da ética e da moralidade.

9. (Unesp) Os ídolos e noções falsas que ora ocupam o intelecto humano e nele se acham implantados não somente o obstruem a ponto de ser difícil o acesso da verdade, como, mesmo depois de superados, poderão ressurgir como obstáculo à própria instauração das ciências, a não ser que os homens, já precavidos contra eles, se cuidem o mais que possam. O homem se inclina a ter por verdade o que prefere. Em vista disso, rejeita as dificuldades, levado pela impaciência da investigação; rejeita os princípios da natureza, em favor da superstição; rejeita a luz da experiência, em favor da arrogância e do orgulho, evitando parecer se ocupar de coisas vis e efêmeras; rejeita paradoxos, por respeito a opiniões vulgares. Enfim, inúmeras são as fórmulas pelas quais o sentimento, quase sempre imperceptivelmente, se insinua e afeta o intelecto.

(Francis Bacon. Novum Organum [publicado originalmente em 1620, 1999. Adaptado.)

Na história da filosofia ocidental, o texto de Bacon preconiza;

a) um pensamento científico racional afastado de paixões e preconceitos.
b) uma crítica à hegemonia do paradigma cartesiano no âmbito científico.
c) a defesa do inatismo das ideias contra os pressupostos da filosofia empirista.
d) a valorização romântica de aspectos sentimentais e intuitivos do pensamento.
e) uma crítica de caráter ético voltada contra a frieza do trabalho científico.

10. (Unesp) Jamais um homem fez algo apenas para outros e sem qualquer motivo pessoal. E como poderia fazer algo que fosse sem referência a ele próprio, ou seja, sem uma necessidade interna? Como poderia o ego agir sem ego? Se um homem desejasse ser todo amor como aquele Deus, fazer e querer tudo para os outros e nada para si, isto pressupõe que o outro seja egoísta o bastante para sempre aceitar esse sacrifício, esse viver para ele: de modo que os homens do amor e do sacrifício têm interesse em que continuem existindo os egoístas sem amor e incapazes de sacrifício, e a suprema moralidade, para poder subsistir, teria de requerer a existência da imoralidade, com o que, então, suprimiria a si mesma.

(Friedrich Nietzsche. Humano, demasiado humano, 2005. Adaptado.)

A reflexão do filósofo sobre a condição humana apresenta pressupostos;

a) psicológicos, baseados na crítica da inconsistência subjetiva da moral cristã.
b) cartesianos, baseados na ideia inata da existência de Deus na substância pensante.
c) estoicistas, exaltadores da apatia emocional como ideal de uma vida sábia.
d) éticos, defensores de princípios universais para orientar a conduta humana.
e) metafísicos, uma vez que é alicerçada no mundo inteligível platônico.

Gabarito

Resposta da questão 1:
[E]

Descartes, ao defender a dúvida metódica como base do pensamento filosófico, inaugura um novo princípio para fundamentar as ciências. Assim, o racionalismo cartesiano, baseado na dúvida sistemática e na certeza da existência de um sujeito pensante, rompe com o pensamento científico clássico e fornece as bases das ciências modernas.

Resposta da questão 2:
[B]

A ética proposta pelo autor determina o aprimoramento espiritual e individual como a dimensão da vida humana mais relevante para atingir a felicidade plena.

Resposta da questão 3:
[C]

O conceito de pseudoindividuação proposto por Adorno no texto expressa a concepção de que a produção cultural de massa é apresentada, de forma ilusória, como gosto individual e livre escolha, criando a falsa ideia de autonomia no consumo de produtos culturais. Assim, o caráter de controle da indústria cultural sobre o indivíduo seria ideologicamente camuflado, de forma a evitar a resistência.

Resposta da questão 4:
[A]

O texto aponta o modo pelo qual os aspectos técnicos da produção cinematográfica, a partir de apelos estéticos, se apresentam de forma espetacularizada e sensacionalista, criando, dessa forma, sentimentos no espectador que o “prendem” intensamente à narrativa produzida.

Resposta da questão 5:
[D]

No texto, o autor relaciona o surgimento do conhecimento filosófico ao desenvolvimento, historicamente determinado e localizado, da consciência individual vinculada à razão e à essência humana de liberdade, que permite aos indivíduos exercer seus potenciais.

Resposta da questão 6:
[B]

Ambos os textos levantam uma reflexão acerca dos aspectos negativos do discurso político marcado pela ausência de análise crítica e de autorreflexão. Os autores apontam as tendências totalitárias desse tipo de discurso, a partir da sua natureza psicológica e social, destacando a contribuição dessa prática discursiva para o empobrecimento intelectual da práxis política.

Resposta da questão 7:
[E]

O conjunto de ideias iluministas, assim como no século XVIII, é apresentado pelo autor como uma postura intelectual, baseada na razão e no humanismo, que possibilita a autonomia e a emancipação dos indivíduos em relação aos fundamentalismos existentes nas sociedades. Esses valores, para o autor, podem ser universalizados, apesar da sua origem europeia ocidental.

Resposta da questão 8:
[D]

Segundo o pensamento de Agostinho, a prova da existência da alma consiste na primazia desta em relação ao corpo físico, ou seja, na superioridade das substâncias imateriais em relação à matéria, ideia identificada na alternativa [D].

Resposta da questão 9:
[A]

Para Bacon, filósofo representante do método de investigação científico empirista, os ídolos levam os homens a adotar falsas noções que dificultam o acesso da mente humana à verdade, dificultando, assim, o avanço científico. Nessa perspectiva, esse pensador defende um pensamento científico baseado no afastamento do homem das paixões e dos preconceitos.

Resposta da questão 10:
[A]

Para o filósofo, a condição humana se mostra inconsistente com os princípios da moral cristã. Assim, a partir de aspectos psicológicos do ser humano, Nietzsche faz uma crítica à aplicação dos valores cristãos à conduta humana.