Língua Portuguesa na USP!

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Lista de Língua Portuguesa na USP!

1) Examine o cartum.

Frank e Ernest – Bob Thaves. O Estado de S. Paulo. 22.08.2017.

O efeito de humor presente no cartum decorre, principalmente, da
a) semelhança entre a língua de origem e a local.
b) falha de comunicação causada pelo uso do aparelho eletrônico.
c) falta de habilidade da personagem em operar o localizador geográfico.
d) discrepância entre situar-se geograficamente e dominar o idioma local.
e) incerteza sobre o nome do ponto turístico onde as personagens se encontram.

TEXTO PARA AS QUESTÕES 2 E 3.

Uma obra de arte é um desafio; não a explicamos, ajustamo-nos a ela. Ao interpretá-la, fazemos uso dos nossos próprios objetivos e esforços, dotamo-la de um significado que tem sua origem nos nossos próprios modos de viver e de pensar. Numa palavra, qualquer gênero de arte que, de fato, nos afete, torna-se, deste modo, arte moderna. As obras de arte, porém, são como altitudes inacessíveis. Não nos dirigimos a elas diretamente, mas contornamo-las. Cada geração as vê sob um ângulo diferente e sob uma nova visão; nem se deve supor que um ponto de vista mais recente é mais eficiente do que um anterior. Cada aspecto surge na sua altura própria, que não pode ser antecipada nem prolongada; e, todavia, o seu significado não está perdido porque o significado que uma obra assume para uma geração posterior é o resultado de uma série completa de interpretações anteriores.

(Arnold Hauser, Teorias da arte. Adaptado)

2) De acordo com o texto, a compreensão do significado de uma obra de arte pressupõe
a) o reconhecimento de seu significado intrínseco.
b) a exclusividade do ponto de vista mais recente.
c) a consideração de seu caráter imutável.
d) o acúmulo de interpretações anteriores.
e) a explicação definitiva de seu sentido.

3) No trecho “Numa palavra, qualquer gênero de arte que, de fato, nos afete, torna-se, deste modo, arte moderna”, as expressões em negrito podem ser substituídas, sem prejuízo do sentido do texto, respectivamente, por
a) realmente; portanto.
b) invariavelmente; ainda.
c) com efeito; todavia.
d) com segurança; também.
e) possivelmente; até.

TEXTOS PARA AS QUESTÕES 4 E 5.

Este último capítulo é todo de negativas. Não alcancei a celebridade do emplasto, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. Verdade é que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto. Mais; não padeci a morte de dona Plácida, nem a semidemência do Quincas Borba. Somadas umas coisas e outras, qualquer pessoa imaginará que não houve míngua nem sobra, e, conseguintemente, que saí quite com a vida. E imaginará mal; porque ao chegar a este outro lado do mistério, achei-me com um pequeno saldo, que é a derradeira negativa deste capítulo de negativas: — Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.

(Machado de Assis, Memórias póstumas de Brás Cubas)

Não sei por que até hoje todo o mundo diz que tinha pena dos escravos. Eu não penso assim. Acho que se fosse obrigada a trabalhar o dia inteiro não seria infeliz. Ser obrigada a ficar à toa é que seria castigo para mim. Mamãe às vezes diz que ela até deseja que eu fique preguiçosa; a minha esperteza é que a amofina. Eu então respondo: “Se eu fosse preguiçosa não sei o que seria da senhora, meu pai e meus irmãos, sem uma empregada em casa”.

(Helena Morley, Minha vida de menina)

4) São características dos narradores Brás Cubas e Helena, respectivamente,
a) malícia e ingenuidade.
b) solidariedade e egoísmo.
c) apatia e determinação.
d) rebeldia e conformismo.
e) otimismo e pessimismo.

5) Nos dois textos, obtém-se ênfase por meio do emprego de um mesmo recurso expressivo, como se pode verificar nos seguintes trechos:
a) “Este último capítulo é todo de negativas” / “Eu não penso assim”.
b) “Não alcancei a celebridade do emplasto, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento” / “Não sei por que até hoje todo o mundo diz que tinha pena dos escravos”.
c) “Verdade é que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto” / “Ser obrigada a ficar à toa é que seria castigo para mim”.
d) “qualquer pessoa imaginará que não houve míngua nem sobra” / “Mamãe às vezes diz que ela até deseja que eu fique preguiçosa”.
e) “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria” / “Acho que se fosse obrigada a trabalhar o dia inteiro não seria infeliz”.

TEXTO PARA AS QUESTÕES 6 E 7.

O rumor crescia, condensando-se; o zunzum de todos os dias acentuava-se; já se não destacavam vozes dispersas, mas um só ruído compacto que enchia todo o cortiço. Começavam a fazer compras na venda; ensarilhavam-se* discussões e rezingas**; ouviam-se gargalhadas e pragas; já se não falava, gritava-se. Sentia-se naquela fermentação sanguínea, naquela gula viçosa de plantas rasteiras que mergulham os pés vigorosos na lama preta e nutriente da vida, o prazer animal de existir, a triunfante satisfação de respirar sobre a terra. Da porta da venda que dava para o cortiço iam e vinham como formigas; fazendo compras. Duas janelas do Miranda abriram-se. Apareceu numa a Isaura, que se dispunha a começar a limpeza da casa. – Nhá Dunga! gritou ela para baixo, a sacudir um pano de mesa; se você tem cuscuz de milho hoje, bata na porta, ouviu?

(Aluísio Azevedo, O cortiço) * ensarilhar-se: emaranhar-se. ** rezinga: resmungo.

6) Uma característica do Naturalismo presente no texto é:
a) forte apelo aos sentidos.
b) idealização do espaço.
c) exaltação da natureza.
d) realce de aspectos raciais.
e) ênfase nas individualidades.

7) Constitui marca do registro informal da língua o trecho
a) “mas um só ruído compacto” (L. 3).
b) “ouviam-se gargalhadas” (L. 6).
c) “o prazer animal de existir” (L. 10).
d) “gritou ela para baixo” (L. 17).
e) “bata na porta” (L. 18-19).

TEXTO PARA AS QUESTÕES 8 e 9.

(…) procurei adivinhar o que se passa na alma duma cachorra. Será que há mesmo alma em cachorro? Não me importo. O meu bicho morre desejando acordar num mundo cheio de preás. Exatamente o que todos nós desejamos. A diferença é que eu quero que eles apareçam antes do sono, e padre Zé Leite pretende que eles nos venham em sonhos, mas no fundo todos somos como a minha cachorra Baleia e esperamos preás. (…)

Carta de Graciliano Ramos a sua esposa.

(…) Uma angústia apertou-lhe o pequeno coração. Precisava vigiar as cabras: àquela hora cheiros de suçuarana deviam andar pelas ribanceiras, rondar as moitas afastadas. Felizmente os meninos dormiam na esteira, por baixo do caritó onde sinhá Vitória guardava o cachimbo. (…) Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preás. E lamberia as mãos de Fabiano, um Fabiano enorme. As crianças se espojariam com ela, rolariam com ela num pátio enorme, num chiqueiro enorme. O mundo ficaria todo cheio de preás, gordos, enormes.

Graciliano Ramos, Vidas secas.

8) As declarações de Graciliano Ramos na Carta e o excerto do romance permitem afirmar que a personagem Baleia, em Vidas secas, representa
a) o conformismo dos sertanejos.
b) os anseios comunitários de justiça social.
c) os desejos incompatíveis com os de Fabiano.
d) a crença em uma vida sobrenatural.
e) o desdém por um mundo melhor.

9) A comparação entre os fragmentos, respectivamente, da Carta e de Vidas secas, permite afirmar que
a) “será que há mesmo” e “acordaria feliz” sugerem dúvida.
b) “procurei adivinhar” e “precisava vigiar” significam necessidade.
c) “no fundo todos somos” e “andar pelas ribanceiras” indicam lugar.
d) “ padre Zé Leite pretende” e “Baleia queria dormir” indicam intencionalidade.
e) “todos nós desejamos” e “dormiam na esteira” indicam possibilidade.

10) Examine esta propaganda.

Por ser empregado tanto na linguagem formal quanto na linguagem informal, o termo “legal” pode ser lido, no contexto da propaganda, respectivamente, nos seguintes sentidos:
a) lícito e bom.
b) aceito e regulado.
c) requintado e excepcional.
d) viável e interessante.
e) jurídico e autorizado.

Resoluções

1) Alternativa D.

Pela Torre Eiffel ao fundo podemos ver que os personagens se encontram em Paris. Ao usar o GPS, eles “percebem” que o aparelho só dá localização geográfica, e não linguística. Sendo assim, o humor se dá pelo fato do GPS não resolver o problema da falta de domínio do idioma local.

2) Alternativa D.

O escritor do texto revela que o “significado não está perdido porque o significado que uma obra assume para uma geração posterior é o resultado de uma série completa de interpretações anteriores.” Sendo assim, as interpretações se acumulam por gerações.

3) Alternativa A.

“De fato”  pode ser substituído pelo  advérbio de afirmação “realmente” e “deste modo”, por ter sentido de conclusão, pode ser substituído por “portanto”.

4) Alternativa C.

Na obra Memórias póstumas de Brás Cubas, principalmente nesse capítulo, “Das Negativas”, o narrador demonstra como a sua existência foi marcada pelo tédio, pela ociosidade e pela tranquilidade. Vejamos alguns trechos: “Não alcancei a celebridade do emplasto, não fui ministro”;  “coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto” e “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.”

Em Minha vida de menina, por sua vez, vemos que a personagem está contente em realizar as atividades domésticas, dizendo que “Ser obrigada a ficar à toa é que seria castigo para mim.” Ao mesmo tempo, essa postura satisfeita demonstra certa crítica social, pois a menina se vê como empregada da casa e não como moradora: “Se eu fosse preguiçosa não sei o que seria da senhora, meu pai e meus irmãos, sem uma empregada em casa.”

5) Alternativa C.

A ênfase é obtida pela expressão “é que”, presente nos dois trechos. A expressão é chamada de expressão denotativa de realce, ou expletiva.

6) Alternativa A.

Uma das principais características naturalistas é a descrição minuciosa. No fragmento ela ocorre pela repetição dos aspectos sonores referentes ao amanhecer: “rumor”, “zunzun”, “vozes”, “ruído”, “discussões”, “gargalhadas”, “não se falava”, “gritava-se”, “gritou” e “ouviu”.

7) Alternativa E.

O registro informal é aquele que não cumpre com as normas cultas gramaticais da língua portuguesa. A expressão “bata na porta”, segundo a língua culta, significaria literalmente bater na porta, dar socos/chutes/murros, sendo assim, para se obter o significado de “bater para que alguém abra a porta”, o certo seria substituir “na porta” por “à porta”.

*Note ainda que há crase, pois “bater a porta”, sem crase, significa fechá-la com força.

8) Alternativa B.

Na carta enviada à esposa, há a recordação da passagem do romance em que Baleia deseja acordar em um mundo repleto de preás. Na sequência, é reiterado o desejo do mundo cheio de preás. Fica evidente, então, o anseio pela justiça social, inclusive Graciliano Ramos afirma que deseja que todos os preás (símbolo de tal justiça no excerto) apareçam “antes do sono”.

9) Alternativa D.

Ambas formas verbais, “Pretende” e “queria dormir” indicam, no contexto, intenção em praticar a ação.

10) Alternativa A.

A palavra “legal” é polissêmica, ou seja, pode ter mais de um significado a depender do contexto. Sendo assim, em contextos formais ela indica a qualidade de estar legalizado, dentro da lei e lícito. Já em linguagem informal, a palavra representa características positivas e interessantes do indivíduo, associando-se a algo “bom”.

Na propaganda em questão, “legal” é explorado em seu sentido formal, de algo dentro da lei, pois logo depois de “combustível legal”, temos a informação de que terá uma lei para punir sonegadores.