UNICAMP: Lista de Português

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Língua Portuguesa UNICAMP

1) Ao descrever a rotina do protagonista Raimundo Silva, o narrador da História do Cerco de Lisboa afirma que só restaram fragmentos dos sonhos noturnos, “imagens insensatas aonde a luz não chega, indevassáveis até para os narradores, que as pessoas mal informadas acreditam terem todos os direitos e disporem de todas as chaves.” (José Saramago, História do Cerco de Lisboa. São Paulo: Companhia das Letras, 1989, p.122.)

Com base nesse excerto e relacionando-o ao conjunto do romance, é correto afirmar que o narrador é

a) polifônico, pois, ao considerar todos os pontos de vista das personagens, relativiza a visão de mundo e respeita a privacidade delas.
b) observador, pois dissimula sua avaliação política da realidade ao se mostrar empático ao mundo das personagens.
c) protagonista, pois, ao fazer parte da própria narrativa, assemelha-se às demais personagens e não pode duvidar dos protocolos necessários para contar a história de Portugal.
d) onisciente, pois simula ser tolerante com a pluralidade de vozes narrativas, mas é a singularidade de seu modo de narrar que produz a coesão e a autonomia da narração.

2) As palavras organizadas comunicam sempre alguma coisa, que nos toca porque obedece a certa ordem. Quando recebemos o impacto de uma produção literária, oral ou escrita, ele é devido à fusão inextricável da mensagem com a sua organização. Em palavras usuais: o conteúdo de uma obra literária só atua por causa da forma. (Adaptado de Antonio Candido, “O direito à literatura”, em Vários escritos. São Paulo: Ouro sobre azul e Duas Cidades, 2004, p.178.)

A obra Sobrevivendo no inferno do grupo Racionais Mc’s é composta pelas canções e pelo projeto editorial da capa e contracapa do CD. Nesse projeto editorial, encontram-se elementos visuais e verbais que estabelecem um jogo de formas e sentidos.

Com base na afirmação de Antonio Candido, é correto afirmar que a organização desses elementos

a) produz uma simetria entre som e sentido, sendo que tal simetria indica que os símbolos religiosos são uma resposta à violência.
b) configura um sistema de oposições, uma vez que imagens e palavras estabelecem tensões materiais e espirituais, constitutivas do sentido das canções.
c) configura uma sintaxe poética de ordem espiritual. Essa sintaxe espelha o caos e as injustiças vividos na periferia das grandes cidades.
d) produz uma lógica poética racional. Essa lógica se explicita na vitória do crime sobre a visão de mundo presente nos versículos bíblicos transcritos.

3) O poema abaixo vem impresso na orelha do livro Psia, de Arnaldo Antunes.

(Arnaldo Antunes, Psia. São Paulo: Iluminuras, 2012.)

Na orelha do livro, Antunes apresenta ao leitor seu processo de criação poética. É correto dizer que o autor se propõe a

a) revelar a primazia da comunicação oral sobre a escrita das palavras.
b) discutir a flexão de gênero, que torna a palavra “psia” um substantivo.
c) defender a conversão das palavras em coisas, mudando seu estatuto.
d) explorar o poder de representação da interjeição exclamativa “psiu!”.

4) Texto I

Os idiomas e suas regras são coisas vivas, que vão se modificando de maneira dinâmica, de acordo com o momento em que a sociedade vive. Um exemplo disso é a adoção do termo “maratonar”, quando os telespectadores podem assistir a vários ou a todos os episódios de uma série de uma só vez. Contudo, ao que parece, a plataforma Netflix não quer mais estar associada à “maratona” de séries. A maior razão seria a tendência atual que as gigantes da tecnologia têm seguido para evitar o consumo excessivo e melhorar a saúde dos usuários. (Adaptado de Claudio Yuge, “Você notou? Netflix parece estar evitando o termo ‘maratonar’.” Disponível em https://www.tecmundo.com.br/ internet/133690-voce-notou-net flix-pareceevitando-termo-maratonar.htm. Acessado em 01/06/2019.)

Texto II

(Disponível em http://www.willtirando.com.br/anesia-417/. Acessado em 01/06/ 2019.)

Embora os dois textos tratem do termo “maratonar” a partir de perspectivas distintas, é possível afirmar que o Texto II retoma aspectos apresentados no Texto I porque

a) esclarece o significado do neologismo “maratonar” como esforço físico exaustivo, derivado de “maratona”.
b) deprecia a definição de “maratona” como ação contínua de superação de dificuldades e melhoria da saúde.
c) reflete sobre o impacto que a falta de exercícios físicos e a permanência em casa provocam na saúde.
d) menospreza o uso do termo “maratonar” relacionado a um estilo de vida sedentário, antagônico a maratona.

Leia o texto a seguir e responda às questões 5 e 6.

O telejornalismo é um dos principais produtos televisivos. Sejam as notícias boas ou ruins, ele precisa garantir uma experiência esteticamente agradável para o espectador. Em suma, ser um “infotenimento”, para atrair prestígio, anunciante e rentabilidade. Porém, a atmosfera pesada do início do ano baixou nos telejornais: Brumadinho, jovens atletas mortos no incêndio do CT do Flamengo, notícias diárias de feminicídios, de valentões armados matando em brigas de trânsito e supermercados. Conjunções adversativas e adjuntos adverbiais já não dão mais conta de neutralizar o tsunami de tragédias e violência, e de amenizar as más notícias para garantir o “infotenimento”. No jornal, é apresentada matéria sobre uma mulher brutalmente espancada, internada com diversas fraturas no rosto. Em frente ao hospital, uma repórter fala: “mas a boa notícia é que ela saiu da UTI e não precisará mais de cirurgia reparadora na face…”. Agora, repórteres repetem a expressão “a boa notícia é que…”, buscando alguma brecha de esperança no “outro lado” das más notícias. (Adaptado de Wilson R. V. Ferreira, Globo adota “a boa notícia é que…” para tentar se salvar do baixo astral nacional. Disponível em: https://cinegnose.Blogspot.com/2019/02/globo-adotaboa-noticia-e-que-para.html  Acessado em 01/03/2019.)

 

5) Considerando a matéria apresentada no jornal, o uso da conjunção adversativa seguido da expressão “a boa notícia é que” permite ao jornalista

a) apontar a gravidade da notícia e compensá-la.
b) expor a neutralidade da notícia e reforçá-la.
c) minimizar a relevância da notícia e acentuá-la.
d) revelar a importância da notícia e enfatizá-la.

6) Para se referir a matérias jornalísticas televisivas que informam e, ao mesmo tempo, entretêm os espectadores, o autor cria um neologismo por meio de

a) derivação prefixal.
b) composição por justaposição.
c) composição por aglutinação.
d) derivação imprópria.

7) Texto I

Texto II

O que levou Marta, seis vezes a melhor do mundo, a enfrentar a Austrália de chuteiras pretas? Adianto, não foi o futebol “raiz”. Marta não fechou patrocínio com nenhuma das gigantes do mercado esportivo. Não recebeu nenhuma proposta à altura do seu futebol. Isso diz muito sobre o machismo no esporte. A partir disso, a atleta decidiu calçar a luta pela diversidade. (Fonte: https://www.hypeness.com.br/2019/06/chuteira-sem-logo-e-com-simbolo-de-igualdade -de-genero-foi-mais-um-golaco-de-marta/. Acessado em 18/06/2019.)

Considerando o tweet e o texto acima, é correto afirmar que a atleta

a) enfrentou o time adversário com chuteiras pretas, mesmo que não tenha sido influenciada pelo futebol “raiz”.
b) usou chuteiras sem logotipo e luta pela igualdade de gênero no esporte, mesmo sendo considerada seis vezes a melhor do mundo.
c) não recebeu patrocínio de nenhuma grande empresa, embora a chuteira preta sem logotipo simbolize o futebol “raiz”.
d) optou por lutar contra o machismo no esporte, embora as propostas de patrocínio não tenham considerado seu valor.

8) – Pela milionésima vez, por favor, “se amostrar” não existe. Não pega bem usar uma expressão incorreta como essa.
– Ora veja, incorreto para mim é o que não faz sentido, “se amostrar” faz sentido para boa parte do país.
– Por que você não usa um sinônimo mais simples da palavra? Que tal “exibido”? Todo mundo conhece.
– Não dá, porque quem se exibe é exibido, quem se amostra é amostrado. Por exemplo: quando os vendedores de shopping olham com desprezo para os meninos dos rolezinhos e moram no mesmo bairro deles, são exibidos. Eles acham que a roupa de vendedor faz deles seres superiores. Por outro lado, as meninas e os meninos dos rolezinhos vão para os shoppings para se amostrar uns para outros, e são, portanto, amostrados. Percebeu a sutileza da diferença?
– Entendo, mas está errado.
– Como é que está errado se você entende? Você não aceita a inventividade linguística do povo. “Amostrar” é verbo torto no manual das conjugações e “amostrado” é particípio de amostra grátis! Captou? (Adaptado de Cidinha da Silva, Absurdada. Disponível em http://notarodape.blogspot.com/search/label/Cotidiano Acessado em 22/05/2019.)

Considerando que a comparação entre modos de falar pode ser fonte de preconceito, o exemplo citado por uma das personagens da crônica

a) reforça o preconceito em relação às turmas de jovens de um mesmo bairro, com base nos significados de “amostrado” e “exibido”.
b) explicita o preconceito, valendo-se de “amostrado” e “exibido” para distinguir dois grupos de jovens do mesmo bairro.
c) dissimula o preconceito e reconhece que “se amostrar” é, de fato, um verbo que não está de acordo com as normas gramaticais.
d) refuta o preconceito e confirma o desconhecimento da regra de formação do particípio passado do verbo “se amostrar”.

9) Texto I

Leia os versos iniciais da peça Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come (1966), de Oduvaldo Vianna Filho e Ferreira Gullar. Em formato de cordel, os versos são cantados por todos os atores.

Se corres, bicho te pega, amô.
Se ficas, ele te come.
Ai, que bicho será esse, amô?
Que tem braço e pé de homem?
Com a mão direita ele rouba, amô,
e com a esquerda ele entrega;
janeiro te dá trabalho, amô,
dezembro te desemprega;
de dia ele grita “avante”, amô,
de noite ele diz: “não vá”:
Será esse bicho um homem, amô,
ou muitos homens será?

(Oduvaldo Vianna Filho e Ferreira Gullar, Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966, p. 3.)

Texto II

Observe a charge de Laerte que fez parte da mostra Maio na Paulista, em 2019.

(Laerte, Exposição Maio na Paulista, de Laerte e Angeli, 2019. Disponível em https://gq.globo.com/Cultura/ noticia/2019/05/ laerte-e-angeli-participam-de-exposicao-ao-arlivre-na-avenida-paulista.html. Acessado em 02/06/2019.)

Considerando a relação entre os textos I e II, conclui-se que a charge

a) resgata a temática do cordel, rompendo com o impasse vivido pelos personagens.
b) reafirma o dilema dos personagens da peça, parafraseando os versos iniciais do cordel.
c) evidencia a tradição popular nordestina, utilizando a imagem para sofisticar os versos.
d) confirma a força transformadora da versificação popular, reproduzindo-a em imagens.

10) “O que é então o verossímil? Para encurtar: tudo aquilo em que a confiança é presumida. Por exemplo, os juízes nem sempre são independentes, os médicos nem sempre capazes, os oradores nem sempre sinceros. Mas presume-se que o sejam; e, se alguém afirmar o contrário, cabe-lhe o ônus da prova. Sem esse tipo de presunção, a vida seria impossível; e é a própria vida que rejeita o ceticismo.” (Olivier Reboul, Introdução à retórica. São Paulo: Martins Fontes, 1998, p. 97-98.)

Considerando o segundo “Sermão da Quarta-feira de Cinza” (1673), de Antonio Vieira, é correto afirmar que a presunção de confiança por parte do auditório cristão do século XVII decorre da

a) habilidade política do pregador.
b) atenção disciplinada dos ouvintes.
c) crença na salvação e na danação eternas.
d) defesa institucional da Igreja Católica feita pelo clero.

Resoluções

1) Alternativa D.

Ao mesmo tempo que o narrador de História do Cerco de Lisboa é onisciente, ele também é singular, pois tem autonomia para narrador os relatos, mesmo que de forma polifônica. Ao elencar a pluralidade de vozes narrativas, ele constrói coesão e autonomia de narração.

2) Alternativa B.

Ao relacionar o escrito com as palavras podemos notar que há um sistema de oposições, pois há valores religiosos/espirituais (símbolo da cruz, citação de trechos do Salmo 23) e valores terrenos/materiais  (pistola).
Depreende-se, portanto, que as canções trabalharam esse sistema de oposição e denunciaram vivências violentas dos moradores de periferias, que são oprimidos e discriminados pela organização social.

3) Alternativa C.

Ao explorar o processo de formação das palavras e alterar sua composição morfológica, o autor muda também o significado das palavras, como em “calos”, que é uma camada espesse que se forma por movimentos repetitivos e “calar”, verbo para designar silenciamento. Assim, na conversão das palavras em coisas, muda-se seu estatuto.

4) Alternativa D.

O Texto II retoma a ideia do Texto I, pois a Netflix diz não achar saudável o consumo excessivo de tecnologias. Assim, ambos apontam o neologismo “maratonar” como algo oposto ao termo que lhe dá origem, “maratona”, que é uma corrida de longa distância. “Maratonar”, como neologismo, está associado ao sedentarismo e a assistir ininterruptamente aos episódios de uma série.

5) Alternativa A.

Após a apresentadora relatar a situação de violência sofrida pela mulher, ela elabora uma frase com a conjunção adversativa “mas” anteposta à expressão “a boa notícia é que”, ou seja, após apontar a gravidade da notícia, ela compensa dizendo sobre o estado de saúde da violentada: “[…] saiu da UTI e não precisará mais de cirurgia reparadora na face…”

6) Alternativa C.

O neologismo citado pelo enunciado é a palavra “infotenimento”, que inclusive aparece entre aspas. Para formá-la, o autor juntou dois substantivos, informação e entretenimento, porém essa junção só foi possível pelo processo de composição por aglutinação: ambas modificam para formar a terceira, informação perde -rmação e entretenimento perde -entrete. Assim surge um terceiro termo, no qual ainda é possível distinguir as palavras de origem, mas que seus significados se juntam para formar um novo.

7) Alternativa B.

Nos dois textos notamos que há crítica em relação a desigualdade de gênero no futebol feminino. Mesmo Marta sendo eleita a melhor jogadora do mundo por seis vezes ela não recebeu nenhuma proposta de patrocínio que fosse condizente com à sua relevância no esporte. Isso não ocorre com os jogadores de futebol masculino, os quais recebem patrocínios milionários sem ter recebido nenhum prêmio de melhor jogador, por exemplo.

8) Alternativa B.

Um dos personagens da crônica de Cidinha da Silva explica que “amostrar” faz muito sentido, comparando a diferença entre amostrar e exibir: “quem se exibe é exibido, quem se amostra é amostrado”. Desse modo, evidencia-se o preconceito linguístico, que foi atrelado também ao preconceito social – mesmo que entre pessoas de um mesmo bairro – quando o mesmo personagem associa ser “amostrado” com os vendedores de shopping e ser “amostrado” com os meninos dos rolezinhos.

9) Alternativa A.

Os dois textos trabalham com a máxima popular “se correr, o bicho pega; se ficar, o bicho come”. Enquanto no texto I a máxima é relacionada a relação adversa de um casal, no texto II ela representa o coletivo, a união de trabalhadores para enfrentar os impasses.
O texto I se encerra com uma pergunta “Será esse bicho um homem, amô/ ou muitos homens serpa?”, a qual é respondida pelo último quadrinho do texto II “se unir o bicho foge”.

10) Alternativa C.

Ao conceitualizar o que é verossimilhança, o autor recorre a presunção advinda da confiança, ou seja, presume-se que o médico seja sempre capaz de diagnosticar, pois confiamos em seu conhecimento e em seus estudos.
Assim, a veracidade é garantida pela crença dos ouvintes. Isso é o que ocorre com o Sermão de Quarta-feira de Cinza, que garantia a salvação eterna para os virtuosos e para os que se afastam dos valores terrenos, e em contrapartida, estariam condenados ao inferno os pecadores e os que se apegaram aos valores mundanos.
Os ideais desse universo só foram aceitos porque o público acreditava, tinham confiança na Igreja e na presunção de boas intenções dessa, logo eram convencidos pelo sermonista.